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A intervenção federal no Rio de Janeiro

 

temerio


A militarização aberta e declarada da área da segurança pública no Rio de Janeiro, decretada pelo governo Temer a pretexto de garantir o direito à vida e locomoção dos habitantes do estado, não consegue disfarçar o mais que óbvio real motivo imediato da edição do decreto: dar uma sobrevida política ao usurpador Michel Temer. Já descartada pelo próprio governo a possibilidade de aprovar a reforma da previdência em tempo constitucionalmente hábil, não restou ao Vampiro do Planalto opção outra que não a de aproveitar a primeira oportunidade de usar um ato de grande repercussão social e midiática para se manter na linha da sua própria sucessão, já que não despontou até agora no horizonte da extrema direita um nome de viabilidade no nível do aceitável. Isso é o que há de mais óbvio na intervenção. Qualquer analista menos estúpido entre os grandes cardeais da grande mídia poderia identificar tal razão mais visível, embora apenas uma ínfima minoria o tenha feito. E aqui o fazemos apenas para limpar o terreno.

O que há de realmente importante, a razão de fundo e decisiva para a medida, se encontra em sua dimensão estratégica em âmbito regional, nacional, continental e mundial. Vejamos.


No plano estadual, é plenamente sabido por qualquer análise minimamente honesta que o maior causador do verdadeiro morticínio que vitima os trabalhadores no Estado do Rio – e com a mesma e até maior intensidade em vários outros estados da União – não se localiza na maior ou menor capacidade operacional das forças repressivas do estado. A falência da segurança pública no Rio se deve, isso sim, à adoção do princípio do enfrentamento militar do problema, da militarização do controle e da repressão. Como já demonstrado à exaustão, um problema social jamais será resolvido se colocado no eixo desta solução um enfrentamento militar. As polícias militares estaduais, como se sabe, foram criadas no Brasil para dar suporte militar, bélico, às oligarquias regionais em confrontos com o poder central, como o exemplifica o exemplo da tal ‘revolução constitucionalista’ de São Paulo, de 1932, que não passou na verdade de um enfrentamento da então oligarquia paulista com o governo central getulista. E assim foi e tem sido desde o final da República Velha, com a chamada ‘revolução’ de 1930. Desde então, mantém-se a militarização das polícias estaduais como fator de repressão direta aos trabalhadores. Em qualquer caso, deve-se enfatizar que militares são preparados para fazer guerra: matar, exterminar e conquistar territórios. Como também o prova exaustivamente a história, os exércitos dos estados burgueses (Hitler, Churchill, Mussolini, Kennedy, Reagan, Bush, Hillary etc. etc. etc.) passam à história como genocidas, exterminadores de populações civis. Embora a mídia e a história oficial busquem insistentemente fazer olvidar, o desalmado presidente norte-americano Harry Trumann, em ato de inusitadas crueldade, selvageria e covardia, lançou bombas atômicas nas cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki dizimando intencional e imediatamente mais de 200 mil pessoas ao final da Segunda Guerra.


Em síntese, a intervenção militar na segurança no Rio não mais que aprofunda o problema: mortes e mais mortes de trabalhadores inocentes, opressão, desrespeito. Problema apenas para os trabalhadores, para os debaixo. Para os burgueses e pequenos burgueses... sem problema! Na bandeira dos generais: “É preciso conquistar a favela. Morra quem morrer.” A sorte está lançada.


Um projeto estratégico

Mas é preciso identificar e compreender as motivações mais profundas, de médio e longo prazos, que levaram à intervenção. Como temos insistido nas publicações e intervenções do MM5, o chão estratégico em que se localiza a intervenção é o esgotamento do ciclo democrático do estado brasileiro, ciclo este aberto com a democratização de 1985 e fechado, agora, com a deposição da ex-presidenta Dilma Rousseff. Na raiz de todo o processo, a crise de reprodutibilidade por que passa o capitalismo em nível mundial, o que obriga o sistema a aprofundar a exploração sobre os trabalhadores em todo o mundo. Como se sabe – ou deveria se saber, mas a maioria da esquerda não o sabe –, a democracia é a melhor forma de dominação política para a burguesia, um inigualavelmente eficiente sustentáculo político e ideológico, que propicia e reproduz diariamente a ilusão de que o proletariado tem poder de decisão no capitalismo. No entanto, o capitalismo se vê periodicamente obrigado a recorrer a ‘governos fortes (bonapartismo, ditaduras militares) como recurso de manutenção da dominação.


No plano geopolítico mundial, não se identificam diferenças qualitativas entre as políticas postas em prática pelo imperialismo nos países de centro e nos de periferia. Os trabalhadores da Inglaterra, França e Itália, por exemplo, já sofrem as consequências do assalto aos seus salários e direitos sociais. Nos países de periferia, contudo, se faz necessário aos lucros do capital um aprofundamento repressivo em nível maior que nos países centrais, já que a burguesia mundial não pode abrir mão de seus mercados de consumo no centro, constituído hoje pela maioria dos habitantes destes países – mercados que ainda incluem parcela da classe trabalhadora –, e nos países periféricos constituídos pela burguesia e pequena burguesia.


Conclusão: o capitalismo mundial – leia-se: o imperialismo – não pode tolerar nem conviver com a vigência de modelos de acumulação sequer aproximados com alternativas socialdemocratas. Como no caso da Venezuela, em que Estados Unidos e União Europeia despendem seus mais sofisticados esforços para derrubar o governo bolivariano (uma socialdemocracia radicaliza, como o temos caracterizado) de Nicolás Maduro, já trabalhando concretamente com a hipótese de uma intervenção militar para a efetivação de mais um golpe de estado clássico na América Latina, inclusive com a participação ativa de outros países alinhados com Trump, como Brasil e Argentina. O que de todo modo não seria uma tarefa fácil, todos sabem. Custaria muitas e muitas vidas, mas ao imperialismo isso pouco importa. É neste quadro que o Vampiro do Planalto interrompeu suas férias de carnaval para participar de uma reunião com seus patrões em que se discutiram alternativas e meios para o golpe-intervenção na Venezuela. De nosso lado, aqui no Brasil, a esquerda deveria deixar de lado, pelo menos um pouco, suas preocupações eleitoreiras (no caso dos reformistas e gramscianos) e voluntaristas-messiânicas (no caso do trotsquismo) e buscar formas de apoio real e ativo ao governo Maduro e à revolução bolivariana. Mas sabemos que isso é impossível, pela óbvia razão daquilo que são: reformistas, gramscianos e trotsquistas.


A ninguém escapou o detalhe de que a intervenção, segundo o texto do decreto, se estenderá até o fim de dezembro deste ano. Ou seja, a eleição presidencial de outubro ocorrerá sob sua vigência. Que fazer? Para essa maioria da esquerda, a lamurienta repetição da mendicância pela democracia, eleições livres, cidadania. Enfim, o velho e quebradiço rosário de ‘reivindicações’ que fazem o gozo e a festa da burguesia. Para nós marxistas, do lado exatamente oposto, restará sempre o caminho da classe trabalhadora: juntar-se ao proletariado, fortalecer suas lutas concretas, buscando sempre denunciar os descaminhos burgueses e pequeno-burgueses. É só assim que poderemos fincar raízes sólidas no campo do erguimento de uma vanguarda proletária, leninista, capaz pois de dirigir o proletariado no caminho fértil de sua libertação.


Venceremos!


 

 




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