Logo

Bolsonaro e a agenda identitária

 

FOTO BOZO

Empossado dia 1º de janeiro, o governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro estreia com indícios de que, em curto prazo, pretende adotar estratégia diversionista com o objetivo de diminuir a resistência de parte dos trabalhadores às medidas de arrocho que constituem (estas sim) o verdadeiro cerne de seu programa econômico, como privatizações, cortes de direitos, reforma da previdência e aumento das isenções fiscais a grandes empresas nacionais e estrangeiras, entre outras.

Exemplo dessa ‘estratégia desviacionista’ foi dado pelo próprio Bolsonaro em seu discurso de posse, quando afirmou que fará um governo ‘sem divisão e sem discriminação’. Apesar de no mesmo discurso ter reificado instituições sabidamente reacionárias como família e religião, Bolsonaro na prática acenou com a possibilidade de ter, daqui para frente, comportamento menos intransigente em face de questões relacionadas às ‘lutas identitárias’, como são chamadas as mobilizações e políticas defendidas por segmentos LGBT, de movimentos negros, mulheres e cultos afro-brasileiros.

O governo Bolsonaro parece estar só agora descobrindo o grande potencial que essas agendas identitárias possuem no sentido de desviar a atenção dos trabalhadores do que é essencial e priorizar questões secundárias. Por não terem conteúdo classista e serem fragmentárias, essas lutas dificultam e até inviabilizam, no nascedouro mesmo, o surgimento de críticas de natureza classista e proletária à sociedade capitalista, num movimento de pulverização típico do ‘pós-modernismo’ e da era das ONGs. No Brasil, um dos exemplos mais acabados dessa ideologia antiproletária e antirrevolucionária, no âmbito da ‘esquerda’, está materializado no PSOL, no PT e nas demais organizações que adotam a estratégia reformista gramsciana, que hoje desempenha papel tão nefasto quanto o trotskismo junto aos trabalhadores.

Que ninguém se iluda. A maior vitória ideológica da burguesia está na principalização da agenda identitária, que em nada modifica a essência do modo de produção capitalista e até expande mercados para os setores de serviços monopolizados por grandes corporações. O crescimento do turismo LGBT e das linhas de comésticos e produtos destinados às mulheres negras, por exemplo, são a maior prova disso.

Na posse do novo governador do Rio, Wilson Witzel, tivemos mais um exemplo de como essas políticas são instrumentalizadas pela burguesia, quando representantes de movimentos negros e de religiões afro-brasileiras foram ‘convidados’ e aceitaram participar da cerimônia, num verdadeiro circo de horrores que mostrou o quanto parte expressiva desses ‘movimentos’ estão a serviço da direita.

A experiência do governo Obama nos EUA, contudo, foi o exemplo máximo de como a agenda identitária pode ser recebida de braços abertos pelo capitalismo sem que a dominação burguesa sofra o menor arranhão. Ao contrário, essa agenda ainda outorga à dominação burguesa um verniz ‘progressista’ e de ‘combate ao preconceito’. Cumpre lembrar que, nos EUA, após a burguesia norte-americana ter derrotado os ‘panteras negras’ — que não desvinculavam a luta contra o racismo da luta contra o capitalismo —, o que sobrou dos movimentos negros apenas corroborou a dominação capitalista. O resultado foi a formação de uma burguesia e pequena-burguesia negras. Nada mais que isto.

A provável adoção de uma estratégia desviacionista pelo governo Bolsonaro, com apelo ao ‘diálogo’ junto a setores LGBT, movimentos negros, religiosos e de mulheres, será a contrapartida da brutalidade que esse mesmo governo pretende exercer contra toda e qualquer manifestação essencialmente proletária que venha a ameaçar ou questionar o cerne de suas reformas econômicas capitalistas. Afinal, Bolsonaro foi eleito com apoio da burguesia para fazer aquilo que a burguesia e o imperialismo tanto necessitam em face da crise de reprodutibilidade do capital: cortar direitos, aumentar ainda mais a exploração sobre o proletariado e saquear os orçamentos do estado por meio de privatizações e reformas como a da previdência.

Ao ser empossado como ministro da Fazenda, o especulador Paulo Guedes já discursou em tom de ameaça e chantagem, afirmando que o crescimento econômico do capitalismo no Brasil ‘será comprometido se o Congresso não aprovar a reforma da previdência nos termos do novo governo’. Em continuação à sua chantagem, Guedes afirmou ainda que, se a reforma não for aprovada, vai propor a ‘desvinculação’ das despesas da União, incluindo saúde e educação, o que é claramente inconstitucional.

É disso que se trata. De um governo burguês ainda mais autoritário e militarizado que os anteriores, pronto a abrir guerra contra o proletariado em inúmeras frentes.

A nós, comunistas, cabe organizar a luta contra as políticas capitalistas de Bolsonaro na perspectiva de construção do socialismo, e não de reificação da democracia, forma mais sofisticada de dominação burguesa. Também cabe denunciar o caráter nefasto — antiproletário e de linha auxiliar da ideologia burguesa — que a agenda identitária pode cumprir neste momento.

Venceremos!

 


 

 




© Copyright 2011 - 2012 www.mmarxista5.org