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México: a vitória de López Obrador

 

foto obrador

A vitória do candidato de esquerda Andrés Manuel López Obrador na recente eleição presidencial no México abre uma conjuntura de agudas contradições não apenas no país mais ao norte da América Latina, mas para todo o subcontinente latino-americano. Para melhor entendê-las faz-se necessário ter em mente como ponto de partida todo um conjunto de armas conceituais de que dispomos os marxistas leninistas. Vejamos.

De fato, Obrador é um homem de esquerda, podendo ser mais bem compreendido como um típico socialdemocrata, ou seja, adepto e defensor de um tipo de socialismo (há vários tipos de socialismo, inclusive o socialismo científico, marxista, que não é o caso de López Obrador) que propõe a convivência de políticas distributivistas com a propriedade privada dos meios de produção, com o capitalismo. Como se vê, uma espécie de utopia de sentido negativo, como referência a algo de natureza anticientífica, metafísica. No entanto, isto não desqualifica Obrador enquanto homem de esquerda, se entendemos corretamente o termo, ou seja, como uma linha de pensamento e prática política que tem na busca da justiça e bem-estar sociais seu eixo de estruturação ideológica. Que se descarte, pois, a falsa radicalidade trotskista pela qual são de direita todos que não professam fé religiosa no bíblico ‘Programa de Transição’ e no dogma da ‘revolução permanente’.

É preciso levar seriamente em conta, também, que os espaços econômicos, políticos e sociais que possibilitariam a viabilidade de um projeto estratégico socialdemocrata nos países dependentes estreitaram-se progressivamente a tal ponto – com a adoção da estratégia neoliberal como pressuposto da reprodutibilidade estrutural do capitalismo, a partir do início dos anos 80 do século passado – que tal estratégia é hoje contraditória frente aos interesses do capitalismo. É este quadro geral que explica os golpes brancos na Argentina, no Brasil, no Equador, no Paraguai, na Nicarágua. De graus e intensidades variadas, mas todos compreendidos neste panorama estratégico geral. Isso, no entanto, não nos desobriga a analisar de forma específica cada uma dessas formações sociais, a analisar o quadro concreto das lutas de classes que ocorrem no interior de cada um destes países. Afinal, não é a economia que faz a história, mas as lutas de classes. Marx deixou este princípio absolutamente claro e indiscutível, absolutamente visível a quem não padece de cegueira ideológica, como trotskistas e reformistas – neorreformistas gramscianos incluídos.

É preciso, então, que se contemple a realidade concreta do México para que se possa analisar o significado da vitória de López Obrador no país. Em primeiro lugar, o dado a ser destacado é o que se refere ao aspecto quantitativo daquela vitória: a frente Juntos Faremos História, pela qual concorreu Obrador, obteve cerca de 52% dos votos, ou seja, maioria absoluta, mais que a soma dos demais concorrentes, batendo largamente os candidatos do PAN (direita tradicional) e PRI (nova direita, ex-socialdemocrata). Como força principal da frente vitoriosa, o MORENA (Movimento de Regeneração Nacional), partido de Obrador. Os demais integrantes da frente – o maoísta Partido do Trabalhador e o religioso de direita liberal Encontro Social – não possuem significado de massa relevante, contribuindo relativamente com poucos votos. Além dos votos para a Presidência, a frente obteve seis dos nove governos estaduais em disputa, além das prefeituras de algumas das principais cidades do país, incluída a capital cidade do México. Estes dados aludem a uma forte base de massa do governo eleito, o que certamente remete para a existência de uma grande confiança por parte do proletariado mexicano em que o estado de falência em que na prática se encontra o país, com todas as instituições em estado de grave deterioração, pode e deve ser revertido pelo governo de López Obrador. A fome bate às portas dos lares dos trabalhadores mexicanos. Obrador terá que fazer alguma coisa. Nada, claro, que lembre Lázaro Cárdenas, presidente nacionalista socialdemocrata que estatizou a indústria petrolífera do país em 1938, criando a estatal Pemex (Petróleos Mexicanos), equivalente à Petrobrás e à venezuelana PDVSA.

E Obrador sabe disso. Já em sua primeira aparição pública, em enorme manifestação na Praça Zócalo, no centro da capital logo imediatamente ao anúncio da vitória, domingo passado, ele afirmou que governará para os pobres, mas que fará um governo cuidadoso, responsável etc. etc. Que conversará com todo mundo. E – questão principal – que buscará os recursos necessários aos seus programas em favor dos debaixo no “combate à corrupção e na eficiência administrativa”. Bem, qualquer criança sabe que isso é pouco, é inconsistente, é vago. Mesmo na hipótese, absurda, que fosse factível acabar com a histórica corrupção herdada dos tempos coloniais e desmontar a dinossáurica burocracia paralisante cuidadosamente cevada nos praticamente cem anos de governo do PRI, o volume de recursos seria ineficiente à estruturação de uma ação governamental de caráter verdadeiramente socialdemocrata. Ou seja, que fizesse caminhar juntos crescimento econômico e distribuição ao proletariado de parte significativa das riquezas produzidas por este crescimento. Que tal distribuição fosse o eixo em torno do qual giraria o crescimento econômico. Obrador fará isso?

O imperialismo não quer que Obrador faça isso, o imperialismo não deixará Obrador fazer isso, o imperialismo não pode deixar Obrador fazer isso.

Já o proletariado mexicano quer que Obrador faça isso, o proletariado mexicano pressionará Obrador para fazer isso.

É diante desta contradição antagônica – que exprime interesses de duas classes antagônicas – que poderemos configurar um quadro de aguçamento das lutas de classes no México a partir de dezembro próximo, quando Andrés Manuel López Obrador tomará posse como presidente do México. Com a palavra, os leninistas mexicanos. Se não existem, certamente emergirão da tempestade vindoura.

Venceremos!

 

 

 

 


 

 




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